Hurdle race

Quando num ímpeto
De coragem
Consegui lançar
Meu dorso da cama

A memória
Me colocou de volta
Dentro de mim
E dalí
Não saí mais

Olho do furacão
Numa tempestade
De qualquer coisa
É na verdade
Onde há paz

Sob o sereno

Ao desviar o olhar do caminho em que vinhas e me corresponder estirando a pele da cara num riso torpe de tão lindo, tua chegada me veio como a ventilação cruzada numa sala vazia: alvoroçam-se as cortinas; debatem-se as janelas; poeira rodopia; vento canta enquanto gela. Em pouco tempo sua presença, todo vago preenchia.

Que tua beldade proclame cada dia mais a espiritualidade de cores saturadas e enquadramento perfeito que você, Padu e Don Juan, ministra cambaleante e reluzente em volta dos meus pensamentos. Nada condiz com nada, posto que nossa história começou sem começar, acabou sem acabar e continua.

Espero pelo dia em que tua voz seja meu floral sonoro contra toda desintegridade em massa por que ainda penso fazer das suas coxas desenhadas, casa das minhas orelhas que quando quentes, mais liquefeita te torna e te entorno enquanto minas na minha boca, no meu peito e enquanto minas, eu te guardo no obscuro do meu eu, que sem poder ser, não sou e por não poder ter-te não é.

Notívago sereno, a serenidade é o Everest dos sentidos, o mais perto que se chega de te esquecê-la no meu olhar. Serenidade em carne e osso, te conquistar é penoso como todo caminho, sinuoso, suado eu sei e sem fim que nem o mar. Mas há de convir, eu sou o seu ser humano, esculpido e escolhido para te abrigar.

 ÁUDIO 

Semi-dia


Hoje o dia amanheceu me proferindo flashes dos seus traços.
Teu sorriso me veio tão forte quando acordei que, ao perceber
sua ausência, em delírio achei que o dia havia acabado e na
verdade eu estava indo me deitar. 

Hoje o dia vem sendo ferido pela falta que não posso sentir e
entre os lembrares vou renascendo dos vácuos em que pereço.

Prece do sussurro


Sobre o corpo me contorso
Quando posse tomas de mim.
Espalmando os seios,
Denteava a boca
Resmungava rouca
Me puxava os cabelos.
Amor e raiva
Afundava-lhe os dedos
Que me provocava
Me arrepiava os pêlos.
 

Cerrou-se os punhos
Das mãos que me invadia.
Calou-se a boca
Que me denteava,
Já não resmungava
Nem gemia, todavia
Todas as noites e noites
Mal dormidas,
Pensando em você,
Não bastaram
Para que tua cara
Tatuasse no couro
Do corpo nem n'alma.

Eu te esqueci.


 ÁUDIO 

Pirajá

Parte I

Visto que tua impermanência
Rebenta da incoerência
Que desejos interrompidos tem,
Você passa inesperadamente
Ensopa-me
Devasta-me
Parte
Atrás de outra vertente.

Olha Pirajá¹,
Quando disseste
Que molha-me
Porque não choro
Saibas,
Eu derramava
Mil cantis de pranto
Enquanto você chovia.


¹chuva forte e rápida, tipicamente tropical.

Menino Índigo

 

Menino dos olhos de luz
Marejando sonhos,
Não demore na beira da estrada.
Mas não volte sem ver Bahia.

Eleve a mente,
Leve toda bondade
E traga-os em forma de paz.

Cuidado, menino
A vida é maior que o sonho
E tua vida
Faz parte do sonho de alguém.


Segue teu rumo caminheiro.
O mar
Agora tem teu olhar mineiro
Para se acalmar
E espantado
Vai marejar a Bahia inteira
Com teu cantar.

O vento e a cortina

Sol
Velho curandeiro,
Marca o passar do tempo
Como o lento movimento
Das cortinas que balançam
Quando as vento.

Bloqueia-me como pode,
Mas quando a sopro
Ela dança
E quando sambo
Ela bossa.

Vou a bordo
Da renda que a rebordeia
E ela,
Dançando se rende.
Flutua enquanto entro,
Brinco e parto.

Onde há fogo,
Espalho.
Se ela gosta,
Eu paro.

Posto que o sol,
Velho curandeiro,
Cora cinzas
Que espalho.



 ÁUDIO 

Leitmotiv

A posteriori
O timbre que te retrata
Nem é o do violão.
De samba
Não tens nada
Nem de bossa
Nem de baião.

É o contraponto
De uma fuga
Mal tocada.
Dissonante percussão.
Allegro marcato.

Vem na cadência
De allegretto.
Sai num largo
Fado.

Saiba portanto,
Grande acidente:
O tempo,
Quando paciente,
É bequadro.


 ÁUDIO 

Tomara

Quando do teu olhar,
Rudemente,
Algo dócil
Vir a tona,
Dos teus beijos
Docilmete rudes
virão ematomas
Ao passo que entorno
Teu veneno escorrendo
No canto da boca
Que me toma
O brio,
O frio,
O recato
E a roupa.

Finge dor

O olho mareja
A boca salga
E a mão dormente
Contém.

Quem mareja
Inda corre
A poesia falha que
A que dorme
Detém.

Até que,
Folha a fora,
Molha o olho nu
E desembaça o texto
Ilegível agora
Por teu choro
Cru.