Semi-dia


Hoje o dia amanheceu me proferindo flashes dos seus traços.
Teu sorriso me veio tão forte quando acordei que, ao perceber
sua ausência, em delírio achei que o dia havia acabado e na
verdade eu estava indo me deitar. 

Hoje o dia vem sendo ferido pela falta que não posso sentir e
entre os lembrares vou renascendo dos vácuos em que pereço.

Prece do sussurro


Sobre o corpo me contorso
Quando posse tomas de mim.
Espalmando os seios,
Denteava a boca
Resmungava rouca
Me puxava os cabelos.
Amor e raiva
Afundava-lhe os dedos
Que me provocava
Me arrepiava os pêlos.
 

Cerrou-se os punhos
Das mãos que me invadia.
Calou-se a boca
Que me denteava,
Já não resmungava
Nem gemia, todavia
Todas as noites e noites
Mal dormidas,
Pensando em você,
Não bastaram
Para que tua cara
Tatuasse no couro
Do corpo nem n'alma.

Eu te esqueci.


 ÁUDIO 

Pirajá

Parte I

Visto que tua impermanência
Rebenta da incoerência
Que desejos interrompidos tem,
Você passa inesperadamente
Ensopa-me
Devasta-me
Parte
Atrás de outra vertente.

Olha Pirajá¹,
Quando disseste
Que molha-me
Porque não choro
Saibas,
Eu derramava
Mil cantis de pranto
Enquanto você chovia.


¹chuva forte e rápida, tipicamente tropical.

Menino Índigo

 

Menino dos olhos de luz
Marejando sonhos,
Não demore na beira da estrada.
Mas não volte sem ver Bahia.

Eleve a mente,
Leve toda bondade
E traga-os em forma de paz.

Cuidado, menino
A vida é maior que o sonho
E tua vida
Faz parte do sonho de alguém.


Segue teu rumo caminheiro.
O mar
Agora tem teu olhar mineiro
Para se acalmar
E espantado
Vai marejar a Bahia inteira
Com teu cantar.

O vento e a cortina

Sol
Velho curandeiro,
Marca o passar do tempo
Como o lento movimento
Das cortinas que balançam
Quando as vento.

Bloqueia-me como pode,
Mas quando a sopro
Ela dança
E quando sambo
Ela bossa.

Vou a bordo
Da renda que a rebordeia
E ela,
Dançando se rende.
Flutua enquanto entro,
Brinco e parto.

Onde há fogo,
Espalho.
Se ela gosta,
Eu paro.

Posto que o sol,
Velho curandeiro,
Cora cinzas
Que espalho.



 ÁUDIO 

Leitmotiv

A posteriori
O timbre que te retrata
Nem é o do violão.
De samba
Não tens nada
Nem de bossa
Nem de baião.

É o contraponto
De uma fuga
Mal tocada.
Dissonante percussão.
Allegro marcato.

Vem na cadência
De allegretto.
Sai num largo
Fado.

Saiba portanto,
Grande acidente:
O tempo,
Quando paciente,
É bequadro.


 ÁUDIO 

Tomara

Quando do teu olhar,
Rudemente,
Algo dócil
Vir a tona,
Dos teus beijos
Docilmete rudes
virão ematomas
Ao passo que entorno
Teu veneno escorrendo
No canto da boca
Que me toma
O brio,
O frio,
O recato
E a roupa.

Finge dor

O olho mareja
A boca salga
E a mão dormente
Contém.

Quem mareja
Inda corre
A poesia falha que
A que dorme
Detém.

Até que,
Folha a fora,
Molha o olho nu
E desembaça o texto
Ilegível agora
Por teu choro
Cru.

O caso

Caso queiras,
Volte.

O ocaso
Fará ocasião
Para que,
Caso chegues,
Notes:

Quem criou asas
Não fui eu,
Foi o chão.

Convés

Dizem que quando,
À beira-rio,
Incendeia-se
O corpo,
A água
Que a lua
De luz esguia
Clareia no porto,
Canta
Que nem sopro
De vento afoito.

Camba-te o dorso
Largo,
Apoiado em cadeiras
Sentadas,
Em pernas trançando
Traçando,
Palavra na areia
Com os pés:

Uma pena não ver meu navio
Enquanto piso o convés.