Em caminhada

E se a lassidão
Insistir ladear-me
Na caminhada
E moderar meus passos,
Seguirei mesmo cansada.
É você meu ponto de partida
É você minha chegada.

Pode ser
Que eu ceda
Ao peso da saudade
E me veja seguir vergada
Mas o querer te alcançar
É maior
Que qualquer estrada.

Nuvem tira

Ao lado da beleza certa dum pôr do sol imaculado, há sempre um céu não observado; a linha óbvia dum velho morro e um rastro de nuvem seca; corte alvo cicatrizado; a ferida celeste e toda sua falta de saturação.

Nem no pôr do sol, nem na cor do céu haverá tanta contradição, vitamina do poeta. algumas belezas estão num saltar de olhos que é logo ali ao lado. O pôr do sol volta conosco amanhã, talvez mais exuberante. Já as nuvens que por aspersão passeiam, nunca mais serão. o pôr do sol que nunca soa errado conforta os que desconhecem a verdadeira movimentação, mas quem sobe somos nós, ante o sol e sobre a terra.

 Ante nós e sobre a serra, a nuvem meio fora de forma, que o rei não menos bela, informa: carrego o efêmero, movimento que atola uns. é de medo que ninguém olha. incomoda?

Eclipse marino

Sou Rebento entoado
Do vocal ventre
Da mãe de nome Iara
Mulher facho;
Clarão irradiado
Por minha avó
De graça Luzia
Inda que nos falte
Ainda luz como fazia
Ambas com o dom:
Marias

Sou eclipse de um mar aluado
A correnteza
É o cinetismo que mantém
A cauda do meu ser
Sirênico e alumiado
Sempre acesa
As águas desse pélago
É o docel da cama dela
Eu sou o fruto
Do silêncio letal
Da sereia mais bela.

Intemperismo

Água e sal veemente vem do meu horizonte desaguando na janela do meu templo, pausa da minha música e vazio da minha arquitetura. Parte da falta à intemperança. Das intempéries minhas, talho teu ego teso feito rocha, de modo que só tal catarata consegue  lapidá-la.

Acariciar as pedras não me parece muito são, mas é o que tenho em mãos ante seu penedo: ocar tal máscara de casca pétrea. Tento rompê-las antes de arremessá-la de cima das rimas que sobre a mesa deixo a deus-dará para que o vento as toque de lá quando canta e gela. Que escorra todo nanquim pela janela deste templo!

É que não desvanece de dentro do poeta a poesia, e esse é o seu pesar. Feito tatuagem marca da pele da memória até a hipoderme da alma. Finca, fere e fica. Feito rocha.

Outoniço sono seu

Dos inícios de outono
Esse me virá a mente
Inda que distante
E latente
Sei que tua cama
Cheira a falta
Que meu corpo
Do seu sente.

Quando me alertar
Das suas feras
E antes de me perguntar
Se as domo
Quero saber
Da beleza poente
Que me traz
Quando já cadente
Sua vigília tomo.

E quando nos seu braços
Vou poder velar seu sono?

Além dela

Sendo eu partícula de poeira
Circundada pela contraluz do céu
E a silhueta da mantiqueira
Me pergunto:
O que tem por trás da serra
Que todo dia
Estampa minha janela?

Deslembrar

Canção muda
Que toca com
O naufrágio do sol.
Poente incolor
De um dia
De tanto contraste
E matiz:
Vê-se as formas
Mas é preciso não ver
A cor do arrebol.

Doce como navalha

Doce como navalha
Corta gostoso o meu coração
Enquanto o músculo oco
Dos outros trabalham
O meu já todo talhado
Verte-se rumo ao chão

Enquanto corta meu peito
Acaricia a cicatriz
Nada dói, só seu beijo
Nesse coração massa de manobra
Arte contemporânea na sua mão

E é tão doce
O jeito como me fere
Que desse peito
O que jorra é amor?

Hurdle race

Quando num ímpeto
De coragem
Consegui lançar
Meu dorso da cama

A memória
Me colocou de volta
Dentro de mim
E dalí
Não saí mais

Olho do furacão
Numa tempestade
De qualquer coisa
É na verdade
Onde há paz

Sob o sereno

Ao desviar o olhar do caminho em que vinhas e me corresponder estirando a pele da cara num riso torpe de tão lindo, tua chegada me veio como a ventilação cruzada numa sala vazia: alvoroçam-se as cortinas; debatem-se as janelas; poeira rodopia; vento canta enquanto gela. Em pouco tempo sua presença a todo vago preenchia.

Que tua beldade proclame cada dia mais a espiritualidade de cores saturadas e enquadramento perfeito que você, Padu e Don Juan, ministra cambaleante e reluzente em volta dos meus pensamentos. Nada condiz com nada, posto que nossa história começou sem começar, acabou sem acabar e continua.

Espero pelo dia em que tua voz seja meu floral sonoro contra toda desintegridade em massa porque ainda penso fazer das suas coxas desenhadas, casa das minhas orelhas que quando quentes, mais liquefeita te torna e te entorno enquanto minas na minha boca, no meu peito e enquanto minas, eu te guardo no obscuro do meu eu que sem poder ser, não sou e por não poder ter-te não é.

Notívago sereno, a serenidade é o Everest dos sentidos, o mais perto que se chega de te esquecê-la no meu olhar. Serenidade em carne e osso, te conquistar é penoso como todo caminho sinuoso, suado eu sei e sem fim que nem o mar. Mas há de convir: eu sou o seu ser humano, esculpido e escolhido para te abrigar.

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