Menino Índigo

 

Menino dos olhos de luz
Marejando sonhos,
Não demore na beira da estrada.
Mas não volte sem ver Bahia.

Eleve a mente,
Leve toda bondade
E traga-os em forma de paz.

Cuidado, menino
A vida é maior que o sonho
E tua vida
Faz parte do sonho de alguém.


Segue teu rumo caminheiro.
O mar
Agora tem teu olhar mineiro
Para se acalmar
E espantado
Vai marejar a Bahia inteira
Com teu cantar.

O vento e a cortina

Sol
Velho curandeiro,
Marca o passar do tempo
Como o lento movimento
Das cortinas que balançam
Quando as vento.

Bloqueia-me como pode,
Mas quando a sopro
Ela dança
E quando sambo
Ela bossa.

Vou a bordo
Da renda que a rebordeia
E ela,
Dançando se rende.
Flutua enquanto entro,
Brinco e parto.

Onde há fogo,
Espalho.
Se ela gosta,
Eu paro.

Posto que o sol,
Velho curandeiro,
Cora cinzas
Que espalho.



 ÁUDIO 

Leitmotiv

A posteriori
O timbre que te retrata
Nem é o do violão.
De samba
Não tens nada
Nem de bossa
Nem de baião.

É o contraponto
De uma fuga
Mal tocada.
Dissonante percussão.
Allegro marcato.

Vem na cadência
De allegretto.
Sai num largo
Fado.

Saiba portanto,
Grande acidente:
O tempo,
Quando paciente,
É bequadro.


 ÁUDIO 

Tomara

Quando do teu olhar,
Rudemente,
Algo dócil
Vir a tona,
Dos teus beijos
Docilmete rudes
virão ematomas
Ao passo que entorno
Teu veneno escorrendo
No canto da boca
Que me toma
O brio,
O frio,
O recato
E a roupa.

Finge dor

O olho mareja
A boca salga
E a mão dormente
Contém.

Quem mareja
Inda corre
A poesia falha que
A que dorme
Detém.

Até que,
Folha a fora,
Molha o olho nu
E desembaça o texto
Ilegível agora
Por teu choro
Cru.

O caso

Caso queiras,
Volte.

O ocaso
Fará ocasião
Para que,
Caso chegues,
Notes:

Quem criou asas
Não fui eu,
Foi o chão.

Convés

Dizem que quando,
À beira-rio,
Incendeia-se
O corpo,
A água
Que a lua
De luz esguia
Clareia no porto,
Canta
Que nem sopro
De vento afoito.

Camba-te o dorso
Largo,
Apoiado em cadeiras
Sentadas,
Em pernas trançando
Traçando,
Palavra na areia
Com os pés:

Uma pena não ver meu navio
Enquanto piso o convés.

Choro preto

Quero que doas
Como dói um corpo hipotérmico.
Gemendo
Chorando
No meu vale
Ungido de lagrimas.
Até que o ganido
Vire grito
E tuas frases
Sejam lástimas.
Quero que
Munida de medo
Clame cama
E a algidez
Te invada em vida.
E então,
Deixo-te ir.

Quando fores,
Quero que percas
E se perdendo,
Que te ludibriem.

Quero que doas
Como doí.

Singular falado


Pra quando bater preguiça de ler:

https://soundcloud.com/crysmarques/sets/singular

Refuga

Me espanta a facilidade
Com que você vai embora.
Tão fugaz que soa fuga.

Me poupe desse espanto.
Recuo basta
Para tanta recusa.