Da brasa à brisa

Fazer da gota que parte do entreaberto peito; que descansa num poro qualquer; que segue entre curva e outra; escorre; descansa num poro qualquer; escorre; escorre e some na pele, o mar bravio que cultiva a onda que me desmorona, fazendo de mim areia entre lençóis; me arrasta para as profundezas quase abissais, pronde todo rio vai, anuviado em sal. Fazer língua do abraço dado. Pelo que amedronta e pelo amedrontado; fazer da olhadela medrosa que mais pára do que me percorre, quando não se fecha, um admirar infindo como os meus.

Quando a contracorrente encontra-se a seu favor ganha-se o desconhecido e o incomum torna-se corriqueiro. Aventura passa a ser o atrevimento de benquerer um jangadeiro que se desata do remo, mana pelo curso evidente do rio, afluente, porém sem paradeiro. Contracorrente tem fim, a não ser que do nada nasça como o vento que junto a terra leva a água que lava a gente que da terra não leva nada. Infindar é o melhor começo para quem não vê chegada.

Em caminhada

E se a lassidão
Insistir ladear-me
Na caminhada
E moderar meus passos,
Seguirei mesmo cansada.
É você meu ponto de partida
É você minha chegada.

Pode ser
Que eu ceda
Ao peso da saudade
E me veja seguir vergada
Mas o querer te alcançar
É maior
Que qualquer estrada.

Nuvem tira

Ao lado da beleza certa dum pôr do sol imaculado, há sempre um céu não observado; a linha óbvia dum velho morro e um rastro de nuvem seca; corte alvo cicatrizado; a ferida celeste e toda sua falta de saturação.

Nem no pôr do sol, nem na cor do céu haverá tanta contradição, vitamina do poeta. algumas belezas estão num saltar de olhos que é logo ali ao lado. O pôr do sol volta conosco amanhã, talvez mais exuberante. Já as nuvens que por aspersão passeiam, nunca mais serão. o pôr do sol que nunca soa errado conforta os que desconhecem a verdadeira movimentação, mas quem sobe somos nós, ante o sol e sobre a terra.

 Ante nós e sobre a serra, a nuvem meio fora de forma, que o rei não menos bela, informa: carrego o efêmero, movimento que atola uns. é de medo que ninguém olha. incomoda?

Eclipse marino

Sou Rebento entoado
Do vocal ventre
Da mãe de nome Iara
Mulher facho;
Clarão irradiado
Por minha avó
De graça Luzia
Inda que nos falte
Ainda luz como fazia
Ambas com o dom:
Marias

Sou eclipse de um mar aluado
A correnteza
É o cinetismo que mantém
A cauda do meu ser
Sirênico e alumiado
Sempre acesa
As águas desse pélago
É o docel da cama dela
Eu sou o fruto
Do silêncio letal
Da sereia mais bela.

Intemperismo

Água e sal veemente vem do meu horizonte desaguando na janela do meu templo, pausa da minha música e vazio da minha arquitetura. Parte da falta à intemperança. Das intempéries minhas, talho teu ego teso feito rocha, de modo que só tal catarata consegue  lapidá-la.

Acariciar as pedras não me parece muito são, mas é o que tenho em mãos ante seu penedo: ocar tal máscara de casca pétrea. Tento rompê-las antes de arremessá-la de cima das rimas que sobre a mesa deixo a deus-dará para que o vento as toque de lá quando canta e gela. Que escorra todo nanquim pela janela deste templo!

É que não desvanece de dentro do poeta a poesia, e esse é o seu pesar. Feito tatuagem marca da pele da memória até a hipoderme da alma. Finca, fere e fica. Feito rocha.

Outoniço sono seu

Dos inícios de outono
Esse me virá a mente
Inda que distante
E latente
Sei que tua cama
Cheira a falta
Que meu corpo
Do seu sente.

Quando me alertar
Das suas feras
E antes de me perguntar
Se as domo
Quero saber
Da beleza poente
Que me traz
Quando já cadente
Sua vigília tomo.

E quando nos seu braços
Vou poder velar seu sono?

Além dela

Sendo eu partícula de poeira
Circundada pela contraluz do céu
E a silhueta da mantiqueira
Me pergunto:
O que tem por trás da serra
Que todo dia
Estampa minha janela?

Deslembrar

Canção muda
Que toca com
O naufrágio do sol.
Poente incolor
De um dia
De tanto contraste
E matiz:
Vê-se as formas
Mas é preciso não ver
A cor do arrebol.

Doce como navalha

Doce como navalha
Corta gostoso o meu coração
Enquanto o músculo oco
Dos outros trabalham
O meu já todo talhado
Verte-se rumo ao chão

Enquanto corta meu peito
Acaricia a cicatriz
Nada dói, só seu beijo
Nesse coração massa de manobra
Arte contemporânea na sua mão

E é tão doce
O jeito como me fere
Que desse peito
O que jorra é amor?

Hurdle race

Quando num ímpeto
De coragem
Consegui lançar
Meu dorso da cama

A memória
Me colocou de volta
Dentro de mim
E dalí
Não saí mais

Olho do furacão
Numa tempestade
De qualquer coisa
É na verdade
Onde há paz